Para a pesquisadora e gestora global brasileira, avanço da tecnologia e endurecimento dos controles migratórios precisam caminhar ao lado de políticas capazes de reconhecer a dimensão humana de quem atravessa fronteiras
A mobilidade humana voltou ao centro das grandes discussões internacionais. Mudanças nas políticas migratórias, transformações no mercado de trabalho, envelhecimento populacional, conflitos, desigualdades e novas possibilidades profissionais têm levado governos e sociedades a enfrentar uma questão que vai muito além do simples controle de fronteiras.
Para a pesquisadora e gestora global brasileira Elisangela “Zazá” Sousa, compreender os movimentos migratórios contemporâneos exige abandonar análises isoladas. Migração envolve simultaneamente economia, trabalho, segurança, demografia, cultura, direitos humanos e políticas públicas.
É justamente por essa complexidade que ela considera a mobilidade internacional um dos grandes desafios de liderança deste século.
“A história da civilização também é a história da mobilidade humana. Talvez um dos nossos maiores equívocos seja tentar compreender a migração apenas por formulários, fronteiras ou estatísticas. Antes de qualquer processo administrativo, estamos falando de pessoas.”
Historiadora e mestre em Direito, Governança e Políticas Públicas, Zazá vem direcionando sua atuação como pesquisadora para alguns dos principais desafios contemporâneos relacionados à democracia, às políticas públicas, aos direitos humanos e às transformações sociais.
Um mundo em movimento
Para compreender a dimensão atual da migração, Zazá propõe olhar para o fenômeno a partir de uma perspectiva histórica.
Muito antes da existência de passaportes, consulados ou Estados nacionais como conhecemos atualmente, populações já se deslocavam em busca de alimento, segurança, oportunidades e melhores condições de vida.
Esses movimentos também foram responsáveis pela circulação de conhecimento, idiomas, técnicas, crenças e diferentes formas de organização social.
O que mudou no século XXI, portanto, não foi a existência da migração, mas a complexidade dos mecanismos criados para administrá-la.
De um lado, países precisam responder a desafios econômicos, demográficos e relacionados à disponibilidade de trabalhadores. Do outro, governos ampliam mecanismos de fiscalização, exigências documentais, sistemas digitais e instrumentos de controle das fronteiras.
No centro dessa equação estão milhões de pessoas tentando construir novos projetos de vida.
Tecnologia não pode substituir humanidade
A transformação digital também chegou aos processos migratórios.
Plataformas recebem documentos, bancos de dados cruzam informações, sistemas automatizam etapas e novas tecnologias permitem que governos processem grandes volumes de solicitações com uma velocidade que seria impossível poucas décadas atrás.
Zazá reconhece esses avanços como importantes instrumentos de eficiência administrativa. O alerta, entretanto, está na possibilidade de transformar pessoas em meros processos digitais.
“A tecnologia pode organizar informações e tornar procedimentos mais eficientes, mas existe uma dimensão da experiência migratória que nenhum algoritmo consegue compreender completamente: o que acontece com o ser humano que está do outro lado da tela.”
Por trás de cada solicitação existem histórias particulares.
Famílias que reorganizam suas vidas para começar novamente em outro país. Profissionais que deixam suas cidades em busca de oportunidades. Pessoas que aguardam uma autorização para decidir onde os filhos irão estudar. Homens e mulheres que precisam aprender um novo idioma, compreender outra cultura e reconstruir redes de relacionamento.
Por isso, na avaliação da pesquisadora, eficiência e humanização não devem ser tratadas como conceitos opostos.
Migração também é uma questão de liderança
É nesse ponto que Zazá amplia o debate para uma questão central de sua pesquisa e de seu atual posicionamento como gestora global: liderança.
Administrar grandes movimentos populacionais exige regras, instituições e mecanismos de controle. Mas exige também capacidade de diálogo entre governos, empresas, organizações e sociedade.
“A liderança sem responsabilidade pode organizar multidões. A liderança humanística constrói caminhos.”
Para Zazá, uma visão global pressupõe justamente a capacidade de compreender que determinados problemas já não podem ser analisados exclusivamente dentro das fronteiras de um país.
Migração, inteligência artificial, mudanças climáticas, desigualdades sociais, violência de gênero, desenvolvimento econômico e direitos humanos são fenômenos cada vez mais interligados.
Uma decisão tomada em determinado território pode gerar consequências econômicas e sociais a milhares de quilômetros de distância.
Por isso, ela defende a formação de gestores capazes de interpretar diferentes realidades, dialogar com culturas distintas e utilizar pesquisa e evidências como instrumentos para decisões mais responsáveis.
Pesquisar antes de decidir
Essa visão está diretamente relacionada à maneira como Zazá compreende o papel da pesquisa.
Em um mundo com acesso praticamente instantâneo a grandes quantidades de conteúdo, ela ressalta que informação e conhecimento não são necessariamente a mesma coisa.
O desafio contemporâneo é saber investigar, interpretar dados, confrontar perspectivas e compreender contextos antes de chegar a conclusões.
Essa postura torna-se especialmente importante quando decisões institucionais podem afetar milhares ou milhões de pessoas.
Para a pesquisadora, liderar significa também assumir responsabilidade pelas consequências das próprias decisões.
É justamente por isso que método, análise, reflexão e conhecimento precisam ocupar espaço cada vez maior dentro da gestão pública e privada.
O conhecimento precisa atravessar os muros da academia
A defesa de políticas migratórias mais eficientes e humanizadas também se conecta a outra bandeira de Zazá: aproximar a pesquisa acadêmica dos problemas concretos enfrentados pela sociedade.
Ela acredita que produzir conhecimento não deve ser uma atividade isolada da realidade.
Pesquisadores, universidades e centros de estudos podem contribuir para qualificar políticas públicas, orientar governos, fortalecer instituições e oferecer novas perspectivas para problemas que atravessam diferentes países.
Nesse sentido, mobilidade humana representa um campo particularmente importante de investigação.
Não se trata apenas de descobrir quantas pessoas migram ou para onde elas se deslocam. É necessário compreender por que migram, quais barreiras encontram, como são integradas às novas sociedades e quais impactos esses movimentos produzem tanto nos países de origem quanto nos países de destino.
Que sociedade queremos construir?
Zazá acredita que os fluxos migratórios continuarão fazendo parte do século XXI.
Governos continuarão aperfeiçoando seus sistemas. Empresas continuarão buscando profissionais em diferentes mercados. Pessoas continuarão atravessando fronteiras em busca de segurança, trabalho, conhecimento e novas oportunidades.
Por isso, para a pesquisadora, a grande discussão não deve ser simplesmente sobre como impedir ou facilitar movimentos migratórios.
A pergunta mais profunda é como construir sistemas eficientes sem retirar deles a dimensão humana.
“Precisamos perguntar se seremos capazes de criar estruturas cada vez mais modernas sem perder a capacidade de reconhecer a humanidade de quem atravessa uma fronteira. A resposta não definirá apenas o futuro das políticas migratórias. Ela ajudará a definir o tipo de sociedade que escolhemos construir.”
Ao colocar essa reflexão no centro do debate, Zazá Sousa amplia sua atuação como pesquisadora e gestora global em uma agenda que atravessa países e continentes. Uma agenda na qual mobilidade humana, governança, tecnologia, direitos humanos e liderança deixam de ser assuntos separados e passam a integrar uma mesma discussão sobre os caminhos que o mundo pretende seguir.
(Fotos: Divulgação)